CONSTRUINDO ESCOLAS INCLUSIVAS
Entende-se por escola inclusiva aquela na qual o ensino e a aprendizagem, as atitudes e o bem-estar de todos os(as) educando(a)s são considerados igualmente importantes. É uma escola na qual não há discriminação de qualquer natureza e que valoriza a diversidade humana como recurso valioso para o desenvolvimento de todo(a)s, uma escola que busca eliminar as barreiras à aprendizagem para educar de forma igualitária todos os alunos da comunidade. As escolas que promovem o sucesso escolar entendem a inclusão educacional como um processo, dentro do qual cada aluno(a) é permanentemente acompanhado em seu desempenho acadêmico. Na escola de orientação inclusiva, os aluno(a)s que possuem estilos e ritmos de aprendizagem diferentes dos demais, os que costumam faltar às aulas e, aquele(a)s originários de culturas distintas são identificados com o objetivo de apoiá-los de forma mais cuidadosa para garantir sua participação nas atividades escolares e prevenir situações de risco de exclusão.
É possível avançar em direção à inclusão sempre que o aperfeiçoamento e o crescimento profissional permanentes ocorram nos contextos escolares. Vários são os fatores passíveis de contribuir para a implementação de práticas inclusivas, dentre os quais:
• utilizar as práticas e os conhecimentos usuais como pontos de partida para o aperfeiçoamento educacional;
• contemplar as diferenças como oportunidades de aprendizagem e não como problemas a solucionar;
• analisar os obstáculos que se antepõem à participação dos alunos;
• utilizar eficazmente os recursos disponíveis para apoiar a aprendizagem;
• desenvolver a linguagem da prática; e
• criar condições para que os docentes não sintam temor ao desenvolver novas práticas pedagógicas.
Uma cultura institucional inclusiva parte do princípio de que todos são responsáveis pela vida da respectiva instituição e quaisquer problemas ali ocorridos são da responsabilidade de todos, e não apenas de uma pessoa ou de um ou outro segmento da comunidade escolar. Desta maneira, um aluno que, por exemplo, apresente dificuldades em seu processo de aprendizagem, não deveria depender dos esforços apenas de seu professor imediato, mas de todos os participantes da escola, inclusive ele próprio, no sentido de sanar estas dificuldades.
Uma escola ressignificada dentro do paradigma inclusivo necessita compreender, portanto, que não é a quantidade de conteúdos que garante uma boa formação, mas sim todo um conjunto de fatores: pedagógicos, culturais, sociais... Esta escola ressignificada admite a necessidade de se promover uma ruptura com o "conteudismo", ou seja, com a postura que prioriza a quantidade em detrimento do trabalho de qualidade. E uma vez promovida esta ruptura, esta escola admite que é preciso contemplar, em sua proposta educacional, uma flexibilidade que abarque diferentes ritmos e habilidades em sala de aula, como também na cultura educacional da escola como um todo. O currículo deve contemplar objetivos e conteúdos dirigidos para o desenvolvimento de atitudes de respeito e de valorização às diferenças individuais. Da mesma forma, o clima na sala de aula deve favorecer o relacionamento positivo de apoio entre os aluno(a)s e promover a aprendizagem de caráter cooperativo por meio da utilização de estratégias variadas e ativas. Por outro lado, é fundamental gerar e estabelecer relações de cooperação com os pais dos estudantes, buscando comprometê-los a participar ativamente e a emprestar apoio tanto no que se refere ao processo educativo quanto ao projeto educativo institucional da escola.
Quando os professore(a)s de uma escola conseguem avançar na direção de práticas mais inclusivas, esses progressos costumam ter uma influência geral na maneira como são percebidos e na forma de valorização do trabalho docente. É assim que a escola começa a adotar algumas características próprias das chamadas “organizações de aprendizagem” ou “comunidades de aprendizagem”, o que implica “uma organização que amplia continuamente sua capacidade de criar o futuro.” É no sentido da adoção de uma proposta curricular flexível que o preparo profissional torna-se essencial. O/a professor/a da escola inclusiva é dotado/a de características como:
Criatividade – ele/a é capaz de planejar várias atividades para escolha por diferentes alunos de sua turma, caso uma mesma não seja do feitio de todos. Afinal, ele/a reconhece que nenhuma turma é homogênea.
Competência – ela/a está sempre atualizado/a, mantendo a postura de um eterno estudante, e incentivando seus alunos a fazerem o mesmo.
Experiência – este profissional oferece várias oportunidades de aplicação/realização do material aprendido por seus alunos, pois reconhece que a elaboração da aprendizagem não faz uso apenas da memória, mas também da experiência.
Investigação – o/a professor/a está sempre preocupado/a em instigar em seus alunos a curiosidade e o prazer de descobrir.
Crítica – o/a professor/a entende que é essencial que o conteúdo ensinado seja dotado de significação para a vida do aluno; de outra maneira, dificilmente a aprendizagem será passível de transferência para situações futuras e, conseqüentemente, dificilmente será considerada como efetivamente bem sucedida.
Humildade – este/a professor/a reconhece que o saber não tem dono. Neste sentido, ele/a se dispõe, com muito mais facilidade, a entrar numa relação de troca, por oposição ao que Paulo Freire chamaria de uma educação bancária, em que ao aluno caiba apenas receber os conteúdos, e ao/à professor/a caiba apenas "depositá-los" em suas cabeças. O poder é revisto, ressignificado também, e a relação de poder passa a ser mútua, porque construída, democratizada, sobre outra base: a da troca.
É necessário então, aprofundar a análise dos fatores e das condições que possibilitam avançar em direção a práticas inclusivas, transformando a cultura escolar em uma cultura de colaboração e de valorização da diversidade, de respeito às crenças e às características do outro, bem como de ampliação das expectativas dos professore(a)s quanto ao potencial de aprendizagem dos aluno(a)s. A promoção de uma cultura de apoio e colaboração fundada em relações de respeito e cooperação entre aluno(a)s, professore(a)s, pais e apoio interno ou externo à escola (outros profi ssionais, organizações, etc) constitui fator chave para o desenvolvimento e a aprendizagem da comunidade escolar em sua totalidade.
A resolução de problemas com base na colaboração é fundamental para melhorar as competências didáticas dos docentes e para criar um propulsor de mudanças na organização escolar. A fixação de prazo para reflexão sobre a prática e para a colaboração na solução de problemas é um aspecto relevante para o êxito dos projetos educacionais com orientação inclusiva. Neste sentido, é necessário:
• fortalecer os docentes para que examinem criticamente suas próprias práticas, à luz de conhecimento detalhado das necessidades dos estudantes. Os docentes devem fazer isto por meio da investigação cotidiana da própria prática pedagógica,
• incentivar os docentes a solucionar seus próprios problemas, para isso também necessitam desenvolver um relacionamento saudável com outros membros da comunidade escolar e principalmente com seus colegas e, em alguns casos, com especialistas. Nesta parceria de apoio o professor(a) solicita informações, orientações e assessoramento. Os especialistas, por sua vez, devem apoiar a escola como um todo e os docentes diretamente, ao invés de atuar como apoio ao estudante,
• a transformação das práticas docentes devem acontecer no contexto de mudanças mais amplas da gestão escolar e da organização curricular, de modo que a mudança educacional se apóie nestes fatores. O progresso em direção à inclusão deverá ser visto como parte integrante de outras iniciativas internas e externas da escola, ou seja, desenvolver uma escola inclusiva não significa iniciar mais um ‘projeto educacional’, mas incorporar ao projeto político-pedagógico da escola o princípio da inclusão,
No processo de mudança para escolas inclusivas, um dos fatores essenciais para progredir é o estilo de gestão participativa e democrática, no qual se trabalha com as pessoas, apoiando os progressos e as dinâmicas próprias de cada escola e de cada um de seus integrantes. Em uma abordagem deste tipo, os professore(a)s assumem responsabilidades diretas em relação às mudanças, às funções e tarefas que lhes competem, bem como aos resultados de suas ações. É importante:
• Comunicar-se com as pessoas;
• Adotar uma perspectiva geral da escola;
• O apoio mútuo;
• Manter o ímpeto;
• Supervisionar o ritmo do processo de mudança;
• Criar um clima propício ao desenvolvimento profissional;
As escolas que contam com um projeto educacional elaborado com a participação efetiva da comunidade escolar e que reflete consenso melhoram consideravelmente a qualidade da aprendizagem de todos os aluno(a)s. Levando em consideração o nível de complexidade que envolve os processos de melhoria na escola, mediante consenso convém priorizar:
1. Clareza do objetivo da missão: Conhecer e refletir sobre os princípios da educação inclusiva é o ponto de partida para qualquer escola que pretenda orientar seu projeto educacional a partir do princípio da inclusão. Compreender o sentido da educação inclusiva e suas implicações para que a comunidade escolar possa colocar em prática os delineamentos da educação inclusiva é indispensável para enfrentar com sucesso as mudanças. Sob tal perspectiva, as ações levadas a cabo a partir do projeto educacional devem ser compatíveis com a missão da escola, bem assim com os valores e princípios de inclusão que se pretende promover.
2. Objetivos viáveis: É importante estabelecer as prioridades viáveis, levando em conta as necessidades e exigências da escola no âmbito da implementação do projeto (ex. importância de conferir aos participantes formação sobre aspectos relacionados com a educação para a diversidade). Os objetivos devem ajustar-se a tempos reais, já que a participação é mais efetiva se todos sentirem que os objetivos podem ser alcançados.
3. Planejamento colaborativo: O planejamento deve envolver toda a comunidade, a fim de possibilitar a troca de opiniões e a definição consensual das atividades a serem realizadas. Ou seja, o planejamento deve conduzir à ação.
4. Motivação: Para estimular a participação, o compromisso e o esforço no desenvolvimento de um projeto educacional inclusivo, é preciso que os atores sintam a necessidade de mudança. Neste sentido, é fundamental a convicção acerca dos benefícios que a nova orientação do projeto pode representar para a comunidade escolar.
5. Apoio: Sentir-se apoiado quando se pretende modificar as formas tradicionais de ensino é uma condição muito importante, especialmente na etapa de implantação do projeto. Assessoramento e comentários construtivos são muito valiosos. É preciso, portanto, criar na escola um clima de apoio mútuo, que incentive cada pessoa a experimentar novas maneiras de trabalhar.
6. Recursos: Importante tarefa na organização escolar é certificar-se de que existem os recursos necessários à execução do projeto. Isto significa que é preciso estabelecer prioridades e metas para o curto, médio e longo prazos, tanto no que se refere aos aspectos relativos à gestão do projeto, quanto ao aperfeiçoamento curricular, adotando decisões referentes à utilização do tempo, às funções de cada participante e à alocação dos recursos materiais necessários.
7. Avaliação e monitoramento: É importante definir indicadores que permitam a avaliação do andamento do processo, valorizar os resultados e a introdução das melhorias consideradas relevantes para cada organização escolar